Depois de quatro anos de articulação entre organizações não-governamentais, produtores rurais e entidades indígenas, a campanha de proteção das nascentes do rio Xingu intitulada Y Ikatu Xingu apresenta os mais bem sucedidos projetos de recuperação de matas ciliares e reserva legal de Mato Grosso.
Eram necessárias medidas urgentes para salvar uma das bacias hidrográficas mais importantes da complexa rede hídrica do Amazonas. Segundo dados do Instituto Socioambiental divulgados na semana passada durante o 2º Encontro de Nascentes do Xingu, em Canarana, quase um terço da bacia do rio Xingu foi desmatado até o ano passado. Cerca de seis milhões de hectares de cerrado e matas de transição. Somente nas margens dos rios desapareceram 305,3 mil hectares nas 22,5 mil nascentes da região.
Para salvar os rios e matas do Xingu, onde está situado o Parque Indígena do Xingu, a maior área indígena do mundo, a campanha Y Ikatu Xingu formou uma rede de projetos para proteger as nascentes e matas ciliares. Boa parte deles contempla a restauração florestal e alternativas econômicas; gestão e cadastro socioambiental de propriedades rurais e assentamentos; formação de agentes ambientais; manejo controlado do fogo; produção de sementes das espécies do cerrado e planejamento e gestão territorial.
“Esses encontros são uma oportunidade de todos se juntarem numa área distante, isolada e extensa em Mato Grosso e mostrar o que cada um está fazendo para reduzir os passivos ambientais. O grande desafio agora é dar um salto com técnicas de recuperação do cerrado e mais do que isso, mudar definitivamente a cabeça das pessoas quanto à proteção do meio ambiente”, disse o coordenador de Iniciativas Para Redução das Mudanças Climáticas do ISA, Márcio Santilli.
Desafios para recuperar o Cerrado
Até 1950, 22,2% do território brasileiro era de matas de cerrado, cerca de 2 milhões de quilômetros quadrados. No último levantamento feito pelo IBGE restaram apenas 34% das matas do cerrado; apenas 1,47% estão em áreas protegidas. Além disso, o que ainda resta são as áreas indígenas. A principal é o Parque Indígena do Xingu (três milhões de hectares), que possui manchas de cerrado e mata de transição.
O problema que se enfrenta em tempos de regularização ambiental de propriedades rurais é que o cerrado é um bioma bastante frágil e muito mais difícil de se regenerar que as matas amazônicas. O Instituto Florestal de São Paulo vem pesquisando há 30 anos técnicas de recuperação de matas de cerrado e só agora conseguiu apresentar bons resultados.
A técnica Giselda Durigan apresentou durante o 2º Encontro de Nascentes da Bacia do rio Xingu alguns dos resultados de pesquisas feitas pelo instituto na Floresta Estadual de Assis (SP) e alertou os produtores de que é mais econômico manter a reserva legal e matas ciliares do que depois tentar recuperá-las. “O cerrado é uma vegetação muito particular que consegue desenvolver estratégias de sobrevivência, mas não de se multiplicar”, disse.
Regeneração natural
O uso do fogo é um empecilho para recuperação do cerrado, por eliminar sementes para regeneração. A braquiária é um inimigo silencioso e a agricultura o principal agente de destruição das estruturas subterrâneas do cerrado. Os principais obstáculos para a recuperação são: falta de produção de sementes, solo erodido e falta de polinizadores.
Depois de observar seis experiências em solos, Giselda conta que a melhor maneira de recuperar reservas legais é facilitar a regeneração natural, fazendo o controle de plantas invasoras como as gramíneas que sombreiam as plantas, e o uso de herbicidas. “Além disso é preciso evitar revolvimento da terra para facilitar a rebrota de raízes. A escolha do que se vai plantar na recuperação é importante. Nunca se deve utilizar plantas da Amazônia em áreas de cerrado porque não dará certo. Deve-se abusar das gramíneas (capim do cerrado), trepadeiras e flores”, explicou.
O bioma de cerrado tem uma importância fundamental na proteção das nascentes das principais bacias hidrográficas brasileiras: Amazônica e Paraguai- Paraná. O cerrado proporciona maior infiltração das águas de chuvas, mantendo as nascentes e evitando enchentes. “É o que mantém o equilíbrio hidrológico do país”, comenta Giselda.