Vai longe a época na qual se deparar com um painel solar em uma residência era motivo de espanto, mas ao mesmo tempo nem mesmo o apelo ambiental, por ser uma fonte limpa, nem o econômico, por reduzir os gastos com a eletricidade, já conseguiram fazer do uso da energia solar algo comum entre a população. No entanto, a tendência no setor é de expansão e a cada novo verão aumentam as esperanças de quem trabalha na área de ver o uso dessa energia difundida no Rio Grande do Norte.
“Temos registrado um crescimento de uns 10% ao ano, mas o mercado ainda não foi sequer ‘arranhado’, pois muitos desconhecem essa tecnologia. A grande barreira ainda é o custo inicial, que é alto, mas as vantagens são inúmeras”, afirma o engenheiro Juvenal de Macedo Filho, proprietário de uma das mais antigas e conhecidas revendedoras de produtos de energia solar no Estado, a Solir. Ele aponta como destaque atual a grande demanda por aquecedores para piscinas, tanto em condomínios e residências, quanto em escolas e academias.
Porém, o sistema que lidera as vendas para uso residencial continua sendo o de aquecimento de água para utilização em chuveiros e pias. O kit padrão, instalado e pronto, não sai por menos de R$ 4 mil. “Infelizmente, nos últimos anos houve um acréscimo muito grande no preço dos insumos utilizados, como o cobre, o alumínio e o aço-inox”, lamenta o engenheiro. O problema, porém, nada tem a ver com a recente crise internacional.
O fenômeno é mais antigo, vem sendo registrado há cerca de seis anos, e se deve principalmente ao espantoso crescimento econômico da China, o que levou a fazer valer uma velha regra de mercado: quanto menos oferta e mais demanda, maior o preço do produto. Além disso, Juvenal de Macedo destaca também uma realidade nacional, a falta de grandes indústrias nesse setor. “Temos várias em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, mas todas de pequeno e médio porte, o que dificulta a redução nos custos.”
Outra forma que serviria para baratear os kits é o desenvolvimento, a médio e longo prazos, de novas tecnologias, que permitam a utilização de materiais mais em conta. “O cobre, por exemplo, é bastante caro”, explica. Por tudo isso, embora reconheça que o poder público nem sempre contribui com o avanço do mercado, ele acredita que o impulso necessário também pode vir de leis de incentivo, como a que vigora na capital paulista, onde toda casa com mais de três banheiros é obrigada, pelo menos no papel, a fazer uso da energia solar.
O proprietário da Solir destaca que hoje sua clientela é formada basicamente por integrantes das classes A e B, que têm maior facilidade em obter o investimento inicial necessário. Contudo, ele lembra que a classe média talvez fosse exatamente a mais beneficiada pelo sistema. “Famílias de classes como a C poderiam economizar mais, pois geralmente contam com mais pessoas em uma mesma residência, gastando mais com banhos quentes”, observa. A economia com a energia solar, aliás, varia de caso para caso, dependo do uso que cada família faz da água quente, mas onde essa utilização é constante, a redução na conta de luz pode ultrapassar os 50%. “Além disso, contribui com a preservação do meio ambiente, através do uso de uma energia limpa e abundante, o que vem atraindo o interesse de muitas pessoas”, conclui.
Pesquisas podem resultar em equipamentos acessíveis
Baratear a energia solar em residências e difundir seu uso principalmente entre a população mais carente é um dos sonhos do professor de Engenharia Mecânica da UFRN, Guilherme Meira. Apontado como um dos maiores especialistas potiguares na área, ele acredita que se houver o incentivo necessário, será possível garantir o uso de fogões, fornos, secadores, destiladores e outros aparelhos que fazem uso apenas dos raios do sol como fonte de energia, por parte de muitos potiguares.
“Um sistema de aquecimento de água como esses vendidos no mercado não sai por menos de uns R$ 2 mil, já o que desenvolvemos com materiais reciclados pode sair por R$ 50 ou R$ 100. Não alcançam o mesmo nível de aquecimento, mas são suficientes para diversos usos”, ressalta o pesquisador. Ele lembra que os estudos feitos pelos integrantes de seu grupo de pesquisa se voltam principalmente para a busca de tecnologias de baixo custo, que possam ser acessíveis a todos.
Eles já desenvolveram modelos de fogões e fornos que usam espelhos para aquecer as panelas. Também criaram, recentemente, um secador para uso na desidratação de frutas, utilizando apenas canos de PVC e garrafas pet. “Infelizmente, as fontes de financiamento priorizam apenas as altas tecnologias, sem levar em conta a importância dessas que tornam o uso da energia solar mais acessível”, lamenta o engenheiro.
Ele lembra que um terço da população mundial ainda cozinha utilizando lenha e a adoção dos fogões e fornos a energia solar poderia, por exemplo, resultar em menos poluição e desmatamento. Ao mesmo tempo, o valor de um equipamento solar, em torno dos R$ 200, permitiria seu uso por camadas mais carentes da população. “Em um forno desses, a gente assa pizzas, faz bolos, o tempo não é o mesmo, mas a economia vale à pena, pois não se gasta gás”, destaca.
Guilherme Meira indica que o mundo vem priorizando as “energias limpas”, contudo o Brasil ainda não despertou para o imenso potencial existente em seu território. “O petróleo não vai acabar de uma hora para outra, mas está cada vez mais difícil explorá-lo, é cada vez mais profundo e chega um momento que o mundo não suportará mais tantos combustíveis fósseis”, alerta.
Para expandir o uso das energias alternativas, contudo, será necessário os órgãos públicos brasileiros se “sensibilizarem” para a importância de apoiar tecnologias como as desenvolvidas na UFRN. “Não é tecnologia só para os pobres, pode beneficiar a todos. Agora, precisamos levá-las até à população, massificá-las”, defende.
Usuário de energia solar aprova técnica
Em 1984 o professor universitário Marcílio Colombo se mudou para sua atual residência, em Lagoa Nova, e incluiu no projeto do imóvel um sistema de aquecimento solar da água utilizada em dois chuveiros e em uma pia. Hoje, 24 anos depois, ele garante que o resultado é totalmente positivo: “Só em você ter o conforto de não se preocupar se o banho vai aumentar a conta de luz já me deixa muito tranqüilo.”
Apesar de o investimento inicial ser alto, ele lembra que a durabilidade dos equipamentos permite que todo dinheiro gasto retorne em economia na conta de luz. “O primeiro sistema que instalei passou 20 anos funcionando e só troquei porque a tecnologia estava obsoleta, mas o atual deve durar bastante tempo ainda. Não digo que já se pagou nesses quatro anos, mas com seis ou sete tenho certeza que já estará pago”, prevê, estimando em 25% a economia de energia elétrica.
Marcílio Colombo destaca que mesmo em dias nublados as placas coletoras permitem aquecer a água, somente com o mormaço, tanto que em sua residência nunca foi necessário usar o sistema emergencial de aquecimento, que faz uso de energia elétrica. Um benefício extra vem com a consciência de que se está contribuindo com a preservação do meio ambiente.
O kit de 400 litros existente na residência do professor é suficiente para atender à demanda das cinco pessoas da casa, além disso, basta misturar a água que vem do “boiler” com a fria vinda da caixa d’água para escolher a temperatura desejada. “É ótimo”, resume.
Sistema não apresenta os custos de manutenção
Com experiência de 14 anos de mercado, Juvenal de Macedo admite que o uso mais simples da energia solar deverá continuar sendo, por muito tempo, o aquecimento da água para o banho. Isso porque, atualmente, a possibilidade de transformar a luz do sol em energia elétrica já existe, mas ainda não é economicamente viável e os equipamentos necessários, os módulos fotovoltaicos, são bastante caros.
Já o aquecimento para utilização em banheiros tem retorno garantido. “São vantagens econômicas e ambientais enormes. Banhos em chuveiros elétricos representam, geralmente, uma grande parcela do gasto das casas com energia elétrica. Com a solar esse gasto deixa de existir”, ressalta. O kit consta basicamente do encanamento geral, as placas coletoras da energia solar e ainda o “boiler”, onde a água quente é armazenada.
Há ainda um sistema de emergência, que em teoria pode ser utilizado caso os períodos chuvosos se prolonguem por vários dias (pois até mesmo em dias nublados o aquecimento é possível) e que prevê o uso da energia elétrica para esquentar a água, mas na prática ele é quase totalmente desnecessário. “Tenho aquecimento por energia solar em minha casa há oito anos e nunca precisei ativar esse sistema de emergência”, ressalta o engenheiro.
O ideal, explica, é que a instalação seja feita antes de a residência ser construída, incluindo a estrutura necessária já no projeto, porém nada impede sua colocação com o imóvel já erguido. Geralmente, o kit básico consta de um mínimo de duas placa coletoras padrão, cada uma com 1 metro por 1,5 m, que são instaladas sobre o teto da casa. O “boiler”, que no mínimo deve ter capacidade para 300 litros, tem de ficar em uma altura maior que a das placas, para permitir a circulação da água (a fria desce e a quente sobe).
Com um kit desses, é possível atender uma média de cinco pessoas em uma residência. “Agora, alguns querem usar nas pias, em banheiras, e isso, logicamente, vai aumentando a demanda e a necessidade de uma estrutura maior”, afirma. Quanto maior a estrutura, melhor os resultados.
Divulgação é fundamental para o setor
Engenheiro de materiais e integrante da equipe de pesquisadores do professor Guilherme Meira, o estudante de doutorado Reginaldo Dias enfatiza que será cada vez mais importante buscar alternativas aos combustíveis fósseis, diante da preocupação crescente com o aquecimento global e a preservação ambiental. “Nosso objetivo aqui é desenvolver produtos que sejam simples, de fácil uso, e que demandem poucos custos”, explica.
A um preço mais barato, se torna mais fácil convencer a população a utilizar as novas tecnologias. “Natal, por exemplo, tem uma incidência muito grande de sol durante todo o ano e esse potencial pode ser aproveitado para as pessoas economizarem e ainda contribuírem com o meio ambiente”, destaca. Ele lembra que, no entanto, atualmente o uso das energias alternativas se limita quase exclusivamente aos mais ricos, pelo investimento financeiro inicial ser alto.
“Os equipamentos hoje saem muito caros. O boiler é de aço inox, precisamos usar um material mais barato para que isso possa ser massificado”, defende Reginaldo Dias. O apoio do poder público, porém, é hoje apenas um sonho. “Com a ajuda necessária, poderíamos desenvolver aqui tecnologias que estão sendo pesquisadas em todo o mundo. Dessa forma, ao invés de pagar aos estrangeiros para utilizarmos a deles, poderíamos usar a nossa”, ressalta o pesquisador.